21 de novembro - Dia da Homeopatia no Brasil

Texto publicado na Gazetinha n° 13 - novembro de 2006 - Edição Especial
Produzida pela Associação Médica Homeopática Brasileira - AMHB

Comemorando o Dia da Homeopatia no Brasil, compartilhamos as palavras do
Dr Marcos Zulian Teixeira.
 

Ao comemorar o Dia da Homeopatia no Brasil, rememorando a chegada de Benoit Mure ao nosso continente, não posso me furtar a uma série de reflexões sobre o momento atual da homeopatia brasileira, em que se discute as normas técnicas para o registro de medicamentos dinamizados industrializados junto a ANVISA (Resolução 139).

Trabalhando pela inserção da homeopatia no meio acadêmico brasileiro, coordenando a disciplina "Fundamentos da Homeopatia" e a "Liga de Homeopatia" da FMUSP, assim como outras iniciativas de divulgação informativa e científica dos pressupostos homeopáticos perante a classe médica uspiana, sempre me coloco em defesa da racionalidade científica que embasa a prática médica homeopática: princípio da similitude e experimentação patogenética homeopática.

Há mais de duzentos anos, a terapêutica homeopática está embasada em princípios científicos, experimentais e reprodutíveis, que possibilitaram a divulgação do modelo homeopático em diversos continentes e em épocas distintas, aplicando a clínica da similitude através do conhecimento das propriedades patogenéticas que as substâncias medicinais despertam nos experimentadores humanos, seja em doses ponderais ou dinamizadas.

Fugindo das intoxicações e agravações das doses ponderais, freqüentemente utilizadas na primeira fase da terapêutica homeopática, Samuel Hahnemann propôs o método farmacotécnico da "dinamização", diminuindo exponencialmente o poder medicamentoso das substâncias através de diluições e sucussões sucessivas, resultando numa "informação terapêutica" infinitesimal, não-detectável pelos mais potentes instrumentos de mensuração físico-químicos modernos, mas capaz de despertar sintomas patogenéticos e curar sintomas semelhantes nos experimentadores humanos suscetíveis.

Ao contrário das doses farmacológicas clássicas, que despertam alterações fisiológicas e comportamentais nos indivíduos de uma mesma espécie segundo uma mesma concentração sérica do princípio ativo, os "medicamentos dinamizados", pela intrínseca imponderabilidade química, somente conseguirão despertar e curar sintomas nos indivíduos que apresentem alto grau de similitude vital ou sintomática.

Apesar de diminuir os efeitos nefastos das agravações e intoxicações das doses ponderais, a sutileza da "freqüência do medicamento dinamizado" somente conseguirá entrar em ressonância com a "freqüência dos sistemas orgânicos" que apresentem alto grau de semelhança vital ou freqüencial, traduzidos na semiologia homeopática pelos sinais e sintomas característicos da individualidade enferma:

"Todo módulo oscilante, quando for estimulado por freqüências especificamente definidas, ressoará produzindo ondas estacionárias. Apenas nestas freqüências individuais o agente receptor absorverá eficientemente a vibração dispensada pelo agente externo, ou seja, durante a ressonância a energia flui inteiramente do estimulador para o receptor".(1)

Por estes e outros aspectos que Hahnemann e todos os seus seguidores enfatizaram a "individualização medicamentosa" e o "emprego de substâncias únicas e simples" na prática terapêutica homeopática, aplicando o princípio da similitude entre a totalidade de sintomas característicos do binômio doente-doença e as manifestações patogenéticas das substâncias experimentadas em indivíduos humanos, criticando o emprego de meios compostos (complexos homeopáticos) sem experimentação patogenética prévia:

"Em nenhum caso de tratamento é necessário e, por conseguinte, não é admissível administrar a um doente mais do que uma única e simples substância medicamentosa de cada vez. É inconcebível que possa existir a menor dúvida acerca do que está mais de acordo com a natureza e é mais racional: prescrever uma única substância medicamentosa simples e bem conhecida num caso de doença ou misturar várias diferentes. Na única, verdadeira, simples e natural arte de curar, a homeopatia, não é absolutamente permitido dar ao doente duas substâncias medicamentosas diferentes de uma só vez." (Organon, § 273)

"Como o verdadeiro artista da cura encontra nos medicamentos simples administrados separadamente e sem mistura tudo o que por ventura possa desejar [...], conforme reza o sábio provérbio que diz ser um erro empregar meios compostos quando os simples são suficientes, jamais lhe ocorrerá dar como medicamento mais do que uma substância medicamentosa simples de cada vez e também por ter em vista que, embora os medicamentos simples tivessem sido completamente experimentados quanto a seus efeitos puros peculiares no estado de saúde dos Homens, é impossível prever como duas ou mais substâncias medicamentosas compostas podem mutuamente alterar e obstar a ação da outra sobre o organismo humano [...]."(Organon, § 274)

Não bastassem estes alertas incontestáveis do criador da homeopatia, lembremos que a meta-análise publicada em 2005 no The Lancet (2) demonstrou a falácia terapêutica da prescrição de medicamentos homeopáticos segundo as abordagens oligossintomáticas e complexistas que, no intuito de uniformizar e agilizar a prática homeopática, desprezam a totalidade sintomática característica (individualização) e as experimentações patogenéticas como quesitos fundamentais da terapêutica da similitude.

Com a desvirtuação destes aspectos básicos do modelo homeopático, corremos o risco da perda de identidade que faz da homeopatia uma prática médica holística, centrada no tratamento do indivíduo em sua plenitude bio-psico-sócio-espiritual. Para atingirmos esta proposta terapêutica globalizante, precisamos direcionar nossas forças ao entendimento gradativo da complexidade enferma que se nos apresenta. Qualquer tentativa de generalização e facilitação do método contradiz o próprio espírito da doutrina e a arte de curar homeopática.

Marcus Zulian Teixeira 
Membro da Comissão Científica da AMHB

Referências bibliográficas:

Teixeira, MZ. Estudo sobre doses e potências homeopáticas. Rev Homeopatia.
1995; 60(1): 3-23.

Teixeira MZ. Homeopatia: ciência, filosofia e arte de curar. Rev Med (São Paulo).
2006; 85(2): 30-43.

Hahnemann S. Organon da arte de curar. 6a.ed. Ribeirão Preto: Museu de Homeopatia Abrahão Brickmann, 1995.