CONTEXTUALIZANDO A HOMEOPATIA

Dr. Matheus Marim – Médico Homeopata

 

Com periodicidade orquestrada, anualmente renovam-se os ataques e maldizeres de pessoas mal informadas sobre a Homeopatia. Ao emitirem julgamentos utilizando apenas um pensar reducionista,  esses críticos deixam de contribuir para o debate construtivo das idéias,  ao disseminarem desinformações que rapidamente ganham a mídia, desorientam e confundem  os de menor capacidade para perceber a manipulação midiática.      

Na tentativa de chamar atenção sobre o viés interpretativo, transcrevo aqui, literalmente, um conto contado a crianças com a intencionalidade de “fazê-las dormir”, mas que em realidade constitui-se em ótimo elemento para a reflexão consciente dos que contam e dos que ouvem, bem como excelente motivo de trabalho para a atividade inconsciente do Ser que dorme.


O  VASO  DE  OURO.
Era uma vez, há muito, muito tempo, um sultão muito malvado. Seu coração era tão duro para com os homens como era duro para os animais. Ele nunca havia sentido pena de alguém, nunca acariciara um cachorro. Todos tinham medo dele, do mais humilde ao mais poderoso. E ele só tinha medo de uma coisa no mundo: da velhice. Todos os dias passava horas e horas sentado em suas almofadas, de espelho na mão. Ficava examinando o próprio rosto. Ao ver  um cabelo branco, na hora mandava tingir. Ao perceber uma ruga, ficava  massageando suavemente para ver se a ruga desaparecia.

-Porque – explicava – todo mundo tem medo de mim enquanto sou jovem e forte, mas quando eu ficar velho, ninguém mais vai me obedecer.

E para que nada lhe recordasse a velhice, o sultão cruel ordenou que todos os velhos fossem mortos.

- Só quero ver rostos jovens em torno de mim – dizia ele.

Infeliz daquele cujos cabelos ficassem grisalhos. Era conduzido à praça pública pelos guardas do sultão e decapitado.

De toda parte chegavam mulheres e crianças, mocinhas e rapazes, para implorar ao sultão que poupasse a vida de um marido ou de um pai. Mas o sultão permanecia inflexível.

Por fim ele se cansou, de dia após dia, ouvir súplicas e lágrimas. Ordenou aos cavaleiros de seu exército que fossem a todas as cidades e povoados, campos e planícies, estradas e caminhos anunciar a generosidade de seu sultão.

- Escutai! Escutai todos! O sultão grande e generoso vos concede uma graça! Aquele que conseguir recuperar o vaso de ouro que caiu no fundo do lago situado diante do palácio terá como recompensa a vida de seu pai, e poderá ficar com o vaso! Exultai a generosidade do sultão! Mas os que não conseguirem apanhar o vaso perderão, além do pai, a própria cabeça, que será cortada! Uma única tentativa, prestai atenção, apenas uma única!  Acontecerá todas as manhãs! Essa é a vontade do sultão.

A margem do lago era alta e íngreme. Quem se debruçasse um pouco percebia com nitidez, no fundo da água clara e transparente, um maravilhoso vaso de ouro de gargalo estreito, finamente lavrado e com alças delicadamente encurvadas.

Noventa e nove dias se passaram. E noventa e nove formosos jovens tiveram as cabeças cortadas, pois nenhum deles conseguia chegar ao vaso de ouro no fundo da água clara e transparente...

Naquela época vivia no país do sultão um rapaz chamado Asker. E quando Asker se deu conta de que o pai estava começando a envelhecer, que as primeiras rugas apareciam em seu rosto, que os primeiros cabelos brancos se misturavam aos negros, levou o pai para a montanha, construiu uma cabana no meio dos rochedos e lá escondeu o pai que estava envelhecendo. E todos os dias, após o por do sol, o jovem subia a montanha, escondido, para visitar o pai e levar comida para ele.

Uma noite Asker passou muito tempo sentado, silencioso, ao lado do pai, na cabana da montanha.

-Ó meu filho bem-amado, você, dos meus filhos o mais devotado, que preocupação, que tristeza atormenta o seu coração?

-Não, ó meu pai, não estou fatigado de vir aqui todas as noites. E para ver meu pai saudável, para ver meu pai são e salvo, estou disposto a percorrer um caminho três vezes mais longo, se preciso for, por uma estrada três vezes mais penosa. Minha preocupação é outra. Noite e dia, penso no vaso que está no fundo do lago do sultão. E não consigo entender por que, quando se olha da margem, é possível enxergar aquele vaso tão nitidamente que até parece que basta estender a mão para pegá-lo. E no entanto, assim que alguém mergulha, a água fica turva e o vaso desaparece como se tivesse sido engolido pelo fundo do lago.

Sem dizer nada, o velho escutava o filho falar. Depois, passou muito tempo pensativo.

- Diga, filho meu... – perguntou ele afinal – por acaso não haveria uma árvore qualquer na margem, junto ao lugar onde se avista o vaso?

-Sim, meu pai – respondeu o jovem. – Na margem, bem perto do lago, há uma árvore muito grande, de ramagem frondosa.

Procure lembrar – continuou o pai. – A árvore se reflete na água?

-Sim meu pai. A árvore se reflete na água...

-Me diga outra coisa – pediu o velho. – O vaso não é visível justamente no meio do reflexo da árvore no lago?

-Sim, pai, é no reflexo da árvore que se avista o vaso de ouro...

-Então ouça bem o que vou lhe dizer, meu filho – disse o velho. –Suba na árvore. É lá que você vai encontrar o vaso de ouro do sultão. O que se vê na água é só um reflexo, exatamente como a árvore.

 Rápido como uma flecha, o rapaz desceu correndo a montanha e no dia seguinte se apresentou no palácio do sultão, para fazer a sua tentativa.

-Juro por minha cabeça que encontrarei o vaso de ouro, ó poderoso sultão! – exclamou ao chegar. E Vossa Alteza será obrigado a cumprir o que prometeu.

-Veremos - disse o sultão, dando risada. Falta uma cabeça, justamente, para completar a centena. Você apareceu na hora certa, meu rapaz! 

-Quem viver, verá! – disse o moço. Estou convencido de que Vossa Alteza não completará sua centena, e que minha cabeça permanecerá sobre meus ombros.

-Está bem, vá, tente sua sorte – disse o sultão. E deu ordens aos criados para que preparassem tudo para cortar a centésima cabeça.

Asker foi até a beira do lago e, sem hesitar um segundo, em vez de se jogar na água como haviam feito todos os rapazes antes dele, aproximou-se da árvore que crescia ali ao lado, pendurou-se no tronco, subiu em meio à ramagem e no topo da árvore encontrou o vaso de ouro de gargalo estreito, finamente lavrado e com alças delicadamente encurvadas. Só que o vaso estava dependurado de cabeça para baixo para dar a impressão de estar apoiado no fundo da água pura, onde se refletia como num espelho. O jovem desprendeu o vaso e foi levá-lo ao sultão.

O sultão ficou muito impressionado.

-Eu não tinha idéia de que você fosse tão inteligente – comentou- Foi você, realmente, quem entendeu o que era preciso fazer para chegar até o vaso?

- Não respondeu Asker. – Sozinho eu não teria tido essa idéia. Mas tenho um velho pai, que escondi na montanha, a salvo de seus criados. Foi ele quem deduziu onde estava o vaso de ouro.

Ah, foi isso! – disse o sultão. – Então seria o caso de crer que os idosos são mais inteligentes do que os jovens, pois, mesmo estando longe do lago, um velho encontrou o que cem rapazes não viram...

E desde aquela época, no país daquele sultão, todos veneram os idosos e, quando passa alguém de  cabelos brancos e rosto enrugado, todos lhe dão lugar e fazem uma profunda reverência. 

Mantive o texto na íntegra por considerá-lo bem inserido no contexto atual. Texto para refletir.  Entendo a mídia  como o inclemente sultão que a todos escraviza, impõe sua vontade, elege e depõe governantes, cobra beleza, constrói imagens vazias, justifica interesses, apaga a história e veicula violência milhares de vezes mais cruéis que o decapitar dos jovens. Mas... interessa-nos  o vaso, pois assim como o vaso a Homeopatia é buscada onde não está.

Pesquisadores que desconhecem o atuar homeopático, ao não encontrarem no medicamento homeopático os mesmos efeitos que os medicamentos não homeopáticos, o denominaram  depreciativamente de “aguinhas”. Apenas como informação atualizada, essas aguinhas  atualmente mobilizam o Prof. Luc Montaigner, Prêmio Nobel de Medicina 2008, por conseguir ler nelas, através de reações no sistema imunológico, o poder que nelas se esconde. A física já há muito reconhece as “aguinhas” como portadoras de uma informação da família das freqüências, que imediatamente informa o sistema orgânico que também imediatamente inicia um movimento, uma resposta, sempre que houver ressonância entre a “aguinha” e o sistema orgânico em questão. 

Voltando ao conto, procuram no medicamento homeopático a sua ação bioquímica (embaixo do lago), mas a ação reconhecidamente é de ordem fisico-quimica  (sobre a árvore).

Ao estudarem os medicamentos homeopáticos através de  ensaios clínicos utilizando modelos de pesquisa que não contemplam o Ser em sua totalidade, dizem que a Homeopatia não funciona, que o desempenho é semelhante ao do placebo. Modelo de pesquisa errado.  O trabalho do médico homeopata não se dirige à doença ou a apenas alguns sintomas que o doente apresenta, mas sim ao doente em sua totalidade. A Homeopatia procura harmonizar o doente com suas doenças. Os protocolos de pesquisa em Homeopatia têm o doente como centro e não uma ou outra doença que ele possa apresentar.  É só assim que a Homeopatia pode ser pesquisada.  

Assim como no conto, ao pesquisar a Homeopatia utilizando protocolos que apenas levam em consideração doenças é procurar no fundo do lago. A pesquisa deverá estar dirigida ao doente em sua totalidade, o doente está em cima da árvore.  

Aí está o viés, a Homeopatia é procurada onde ela não está, aparentemente está lá, mas não está.  

E já que estamos no campo do conto e da estória, deixo aqui um pouco da história da Homeopatia para que os interessados possam perceber como a Homeopatia se estruturou e tirem suas conclusões.  

Durante o ano de 1790 estava o médico alemão Christian Federico Samuel Hahnemann  (1755-1843 ) a traduzir do inglês para o alemão um livro sobre medicina de um famoso médico clínico da época (o inglês Cullen),  quando não satisfeito com as explicações apresentadas pelo eminente senhor quanto à ação do  medicamento China officinalis, utilizado na época para combater a malária, resolveu experimentar em si mesmo o tal medicamento. 

Surpresa! 

Após tomar o medicamento desenvolveu sintomas físicos semelhantes à doença malária!  

Assim como o senhor idoso da história, Hahnemann deduziu que a China officinalis curava a malária não porque tonificava o organismo, como queria Cullen, mas sim porque tinha o poder de fazer alguém sadio ficar doente com os mesmos sintomas da malária! Ou seja, o poder do medicamento não estava onde pensavam estar, na ação tônica sobre o organismo (sob as águas), mas sim na capacidade de despertar a doença naquele organismo (sobre a árvore).    

A isso chamava-se na época Princípio da Similitude na Arte de Curar, ou seja, a substância que causa a doença tem a capacidade de curar a própria doença. 

Essa idéia não era nova! Já fôra praticada  pelos médicos hindus  3000 anos antes da observação de Hahnemann  e pelos médicos gregos na época de Hipócrates, mais ou menos 2000 anos antes de Hahnemann. Duzentos anos antes do experimento hahnemanniano também  Paracelsus havia mencionado o Princípio da Similitude.

Assim como o jovem do conto Hahnemann sempre dizia que a idéia não era dele. Já  havia lido sobre o Principio da Similitude mas nunca havia dado com ele nem nunca o havia praticado. Como no conto isso lhe fôra contado pelos  antigos escritos,  por isso para ele não foi difícil reconhecer o Princípio da Similitude no binômio malária – China off.. 

Não foi difícil  perceber que o verdadeiro estava no topo da árvore e não sob as águas. Sabedoria dos antigos. 

É deste primeiro momento que a ótica reducionista julga a Homeopatia.    Como “curava-se uma doença (malária) com um remédio (China off.)” a ação assemelhava-se a todas as outras ações em que uma determinada doença curava-se com um medicamento. Engano. Aí está apenas o reflexo do vaso sob a água, pois não é o que acontece. Há uma diferença. 

Sim, há uma diferença! 

Ao experimentar em si mesmo a China officinallis Hahnemann percebeu que além dos sintomas físicos da doença seus pensamentos ficaram mais lentos, tinha grande dificuldade em juntar tudo o que pensava, queria ficar parado, quieto, com sensação de sua cabeça estar confusa e vazia, sentia-se preguiçoso,  com vontade de comer algum alimento que não sabia o que era, sua percepção para cheiros e sabores ficara muito aguçada, seus sonhos ficaram ansiosos, confusos, assustadores,  alguns  com  conteúdo de sexualidade e ao acordar sentia-se completamente confuso e desorientado.

Aí a segunda percepção, a China não produzia apenas sintomas físicos, do corpo, produzia também sintomas mentais, da esfera da alma. Foi o  primeiro registro na história da medicina ocidental em que se  reconhece  o corpo e a mente atuando como uma unidade em resposta à ação de uma substância.  

Mais uma vez o conhecimento ancestral, a Unidade do Ser trabalhada pelos  antigos Vedas, pelo Taoísmo, pela medicina egípcia, por algumas escolas gregas de medicina.   

Como no conto, a Unidade do Ser no topo da árvore, o ser fracionado sob a água. 

Ainda tem um pouco mais! 

Durante a terceira década de sua vida Hahnemann havia contraído maleita nas estepes húngaras, o que o ajudou a elaborar melhor e aperfeiçoar seu raciocínio. Ao haver tido malária anteriormente seu organismo estava mais sensibilizado que os demais à ação da China off.  Pessoas que experimentavam a China off. não apresentavam um quadro tão rico em sintomas como ele apresentara.  Deduziu daí a sensibilidade especial de cada um tanto na experimentação de novos medicamentos quanto no tratamento dos doentes. Porque alguns reagem melhor e ou apresentam mais sintomas.

Como no conto, a consideração da sensibilidade especial de cada um no topo da árvore, o esperar que todos respondem igualmente... sob as águas.

E mais um pouco!

Para minimizar os efeitos tóxicos em seus experimentadores Hahnemann foi diluindo cada vez mais as substâncias, chegando a tal ponto que em seus medicamentos não havia mais substância, e ainda assim os medicamentos faziam efeito, e muitos efeitos semelhantes aos observados quando o medicamento era utilizado em substância. Rompera a barreira da ação bioquímica, adentrara pela ação físico-química, a informação freqüência. 

Como no conto, a informação físico-química no topo da árvore, a individualização, a ressonância, o novo caminho.   

E assim segue a Homeopatia, no topo da árvore, com muitos pesquisadores não homeopatas já pendurados nos galhos. Sejam bem vindos!

Abril/2011