SAMUEL HAHNEMANN,
o fundador da Homeopatia e seus últimos anos de vida em Paris

Texto enviado pelo Dr. Izao Carneiro Soares

O Museu de Homeopatia busca preservar a história da Homeopatia e difundi-la em língua portuguesa. Após ter vivido em diversas cidades alemãs durante sua vida, ter descoberto o princípio da Homeopatia, Samuel Hahnemann chega aos 80 anos de idade, pensando já ter cumprido sua missão, na pequena cidade de Köthen, quando apareceu uma francesa em sua vida, a jovem Mélanie, que o levou para Paris após casamento entre os dois, dando novos rumos à história da Homeopatia.

Vejamos trecho do alemão Martin Gumpert traduzido pelo Museu para a língua portuguesa:

Hahnemann quase não sai de casa. Somente para jantar de vez em quando com o velho barão Rothschild ou quando vai à noite visitar algum doente grave que exija cuidados urgentes. Nossos cavalos são rápidos e o carro é leve... aliás, nós vivemos alegres e alegremente como boas crianças e nos amamos, para surpresa de todos os nossos conhecidos.

Novamente ele se encontra - como sempre - na sua ilha solitária de trabalho. Em Köthen se ouvia falar cada vez menos dele. Quem vai se recordar da metempsicose! A mão começa a tremer, a caneta oscila entre seus dedos. Há muito tempo ele só usa penas de aço. Melanie pega-lhe suavemente a pena e começa a escrever para ele.

A mulher permanece a seu lado. Ela domina a agenda dos pacientes, seus sintomas e os mais remotos apontamentos da Matéria Médica como nenhum dos alunos de Hahnemann. É um compêndio vivo de Homeopatia. Pertence a uma classe de mulheres à qual um homem vive indissociavelmente ligado, e na qual ele se enraíza, encontrando alimento e pouso. Tinha tanto interesse por ele que chegava a ser agressiva e se tornava insuportável para com tudo que não dizia respeito a ambos. Um casamento feliz deixa a mulher insociável.

Quando chegavam os últimos equipamentos da Rue de Milan e acabavam as acomodações dos pacientes nas várias salas e corredores de espera, os pobres e os desfavorecidos esperavam em longas filas no vestíbulo e na escada. Melanie cuidava deles gratuitamente, com conselhos e com medicamentos. Sua fisionomia se tornara mais dura e severa; suas roupas e suas maneiras mais simples. Abandonou as fitas e os bordados. Agora ela possuía incumbências e deveres.

Nos grandes dias acendiam-se centenas de velas e a figura venerável de Hahnemann era cercada de brilho e solenidade. O busto, feito pelo famoso Pierre Jean Davi, o escultor de Goethe, Rauch e Tieck, foi coroado de louros e compareceram todos os que tinham renome ou pertenciam ao beau monde.

Em 1839 foi festejado o sexagésimo jubileu de seu doutoramento. Teve início com a entrega de uma taça dourada onde se podia ler a palavra saúde. Muitas senhoras e senhores levaram flores e declamaram poesias. Mais de cem velas ardiam. Iluminavam a solene pintura de Melanie que cobria a parede do grande salão. Serviçais com pratos nas mãos passavam apressados. O famoso violoncelista Bohrer e a pianista Klara Wiek, a noiva do infeliz compositor Robert Schumann, deram um excelente concerto. Os convidados ficaram até às três horas da manhã.

No dia 10 de abril de 1841, o octogésimo sexto aniversário de Hahnemann, apareceu o emissário real da Saxônia em Paris, o senhor Könneritz e surpreendeu o homenageado com um diploma de sua cidade natal Meissen, que outorgava a cidadania honorária ao mais famoso de seus filhos.

A par dessas solenidades, que se repetiam a cada ano, ainda havia as recepções das segundas-feiras, das quais participavam, principalmente, inúmeros médicos de todas as partes do mundo. Os assuntos eram os aflitivos acontecimentos de uma época de paz, o solene traslado dos restos mortais de Napoleão para a Catedral dos Inválidos, enquanto seu sobrinho Luís Napoleão, quase ao mesmo tempo era conduzido, para o resto de seus dias, à fortaleza de Ham; o trágico acidente de carruagem que custara a vida ao duque de Orleans, o eterno processo contra os Charivari, a construção do primeiro armazém, o Magasin de la ville de Paris, o trem em miniatura, que o rei mandara construir no ministério da marinha, através do engenheiro americano Noris, a fim de verificar como se poderiam evitar possíveis acidentes ferroviários e obter maior segurança.

Nesses serões, Hahnemann ficava em sua cadeira preguiçosa, enrolado num roupão acolchoado, estampado de flores, cortado segundo a última moda e com o seu longo cachimbo constantemente na boca. Só falava esporadicamente, quando Melanie expressava alguma opinião, abanando positivamente a cabeça, sem se apartar do cachimbo: muito bem, minha filha, muito bem.

Num torpor sonolento, pensava sem cessar na nova sexta edição de seu Organon, enquanto o falatório dos outros penetrava em seus ouvidos cansados como através de uma parede de vidro. Começara a ditá-la em suas horas de lazer. Os parágrafos de seus ensinamentos rodeavam seu leito como um sem número de crianças. Cada um possuía sua alma e trazia sua própria fisionomia. O velho e experiente pai as olhava cheio de cuidados. Muitas sorriam, muitas carregavam remorso; algumas eram ternas e fracas; muitas, porém, eram firmes e seguras. Ele amava a todas. Levariam seu coração, seu cérebro, sua pena, sua grande e singular obra, por mil estradas e caminhos, para um futuro imortal, que jamais teria fim.

Na primavera de 1843, como acontecia regularmente há vinte anos, surgiu-lhe uma inflamação na traquéia. Ele sabia que esta era a última. Meu envoltório terreno está gasto. Seria um mau médico aquele que não suporta o próprio fim. Melanie infundiu-lhe uma grande tranqüilidade que suavizou a despedida. Ninguém tinha permissão para vê-lo, nem mesmo sua filha Amalie e o filho, seu neto. Melanie foi muito criticada por esse fato, havendo todos os motivos para que se considerasse tal atitude uma maldade de sua parte.

A existência de Hahnemann foi uma constante separação. Sua sabedoria dizia: a separação só é ruim para aquele que fica. A morte não dá apertos de mão. A mão que ela segura, ela não solta jamais.
Ante essa última e grande disputa, o dia a dia se rende; desatam-se todas as cadeias e correntes. É chegado o momento que esperamos sempre angustiosa e secretamente. Quem está preparado, será abençoado. As raízes se crestam no reino da terra, a seiva seca e o brilho se empalidece. Nuvens e ventos do além, a voz se perde na garganta; começa a luta contra o pesar. Depois dos estertores, vem a paz, depois da luta vem o desenlace. O último olhar - promessa e mistério - não tem retorno.
Será que a dor tem que estar sempre presente na partida ou na chegada de uma criança que chora?
(Jean Paul).

No dia 2 de julho de 1843, nas primeiras horas da manhã, morreu Hahnemann, aos oitenta e oito anos de idade.

A voluntariosa mulher não quer entregá-lo. Tranca as portas e permanece prostrada, sacudida por um pranto silencioso, ao lado do rosto franzino, quase envergonhado na morte e cuja grande testa se sobressai nas almofadas. Não comunicou a sua morte. Ninguém recebeu participação. Seu comportamento se assemelhava, de modo notável, ao comportamento de Hahnemann, por ocasião da morte de Henriette.

A hora do enterro permaneceu um mistério. No dia 11 de julho, o esquife seguiu para Montmartre.

Somente alguns poucos o acompanhavam a pé: a mulher, os serviçais, a filha, o neto. Não houve prece, canto ou discurso. Hahnemann foi enterrado na mesma sepultura em que repousavam os amigos paternais de Melanie, o presidente; Gohier e o pintor Le Thière, seu pai adotivo. Somente em 1898, seus restos mortais, juntamente com o esquife de Melanie foram trasladados para o cemitério Père Lachaise, onde se encontra hoje o seu jazigo.

Por ocasião da abertura do esquife, em presença de uma pequena comunidade de seguidores da Homeopatia, foi encontrada uma trança de cabelos louros enrolada na vértebra cervical de Hahnemann e um manuscrito de Melanie numa garrafa lacrada:

CHRISTIAN FRIEDRICH SAMUEL HAHNEMANN
Nascido em Meissen, Saxônia no dia 10 de abril de 1755, morto em Paris no dia 2 de julho de 1843. Sua mulher, Marie Melanie d'Hervilly, uniu-se a ele no túmulo como era seu desejo e as palavras que foram escritas por ele deverão ser gravadas na pedra:

Hoc nostro, cineri cinis, assibus ossa, sepulcro miscentur, vivos ut sociavit amor.
Neste túmulo unem-se cinza com cinza, ossos com ossos, como o amor os uniu em vida.

Texto 2